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Os Vírus

:: 01 de julho de 2020 ::

As notícias chegaram antes do vírus.
Logo espalharam a mensagem:
Todos para casa! Fiquem em casa!
Já sentindo falta de ar, fechamos as portas e as janelas

Talvez, em silêncio, a Terra cantasse:
Pobre de mim, pobre de mim
Pobre pangolim

O tempo passou, a vida passou, e o vírus continuou
Do lado de fora dos abrigos de concreto, o mundo mudou
Pássaros cantaram, plantas cresceram, e até o ar melhorou

A Terra, como um corpo vivo que luta pela própria sobrevivência
Combateu o vírus que a machucava com outro

Mas que ironia! Procure como surgiu essa pandemia.
A ganância e arrogância de alguns, que também se escondem e temem
Prejudicou todos

Mas quando tudo passar, reabriremos as janelas
Quando tudo passar, voltaremos a sorrir e abraçar
Então, quem sabe, seremos apenas humanos
E apenas um fraco vírus restará

Paloma Brito

(Poesia escrita para a antologia QUARENTENA – Memórias de um País Confinado, da editora Chiado)

Mulher

:: 11 de março de 2018 ::

Com voz doce ou fria
É capaz de despertar alegrias
Ou suportar agonias
Há quem desaprove quando se faz ouvir
Mas isso não importa
Pois a voz que se ergue é dela
Entoando que é sua própria guia

Paloma Brito

Maria

:: 11 de março de 2018 ::

Tu és uma força da natureza
E tua eterna presença
Me ensina a viver
Neste mundo de sentenças

Sem tua luz, Maria, eu nada seria
Sem você, mãezinha, eu sequer existiria

Mãe de todas as mães
Como posso expressar meu amor e gratidão?
Nem todas as palavras do mundo seriam capazes
De te fazer compreender meu coração
Minha mãe, Maria.

Paloma Brito

Amor meu, Quimera

:: 26 de outubro de 2017 ::

Quando meus olhos encontraram os teus, amor meu, pela primeira vez
Imaginei flutuar num mar cálido, acima das bestas esfomeadas
Que tentavam alcançar meus pés nus com dentes arreganhados

Que surpresa tive eu, amor meu, ao tornar-me uma besta parecida àquelas
Entregando-me à tortura e deleite de tua conquista
Expectativas e apetites invadiram meu âmago
E o reflexo mostrava que era tão ambiciosa quanto as vis criaturas

Tua voz despertava em mim anseios que não me atrevi a resistir
Ávida por ti, capturava cada um de teus suspiros hesitantes
Não me contentei! E a dor de tocar o fogo sombrio da tua alma
Queimou a nós dois, amor meu

Amor meu, o que faria sem ti? Eu me perguntava
Nunca permiti que tal resposta surgisse para assombrar nosso júbilo
Mas a verdade, eu sabia, nos espreitava com o olhar devorador
E logo o inevitável, voraz, destruiu o tranquilo castelo utópico que construí

Quando te perdi, amor meu, que agonia senti!
Afoguei-me em saudade, perdi-me nas lembranças de tuas palavras
Belas, simples e fascinantes. Como poderia não te cobiçar?
Tornei-me folha ao vento e grito interminável que dava por ti me rasgava

Pouca lucidez me restara. Amor meu, por que tinhas de partir?
Tua ausência jamais abandonou minha carne flagelada
De nós dois apenas cinzas sobraram. Estavam em minhas mãos, em minha boca
E então tive que admitir o que mais abominava…

Tu também eras besta, amor meu, por me fazer sofrer tanto por ti.

Paloma Brito

(Publicada na antologia de poesia brasileira contemporânea ‘Além da Terra Além do Céu’, pela editora Chiado)