Contando as Horas – Conto

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Mariana tirou a mochila pesada das costas e a largou no sofá junto com o próprio corpo. O relógio no alto da parede soava um tic-tac irritante no silêncio do apartamento, informando com os ponteiros empoeirados que já eram 14 horas. Depois da manhã exaustiva na escola, soltou o primeiro suspiro de alívio. Suas notas ainda não estavam melhores. Mas poucas coisas estavam melhores na sua vida.

Sua mão se enrolou na camiseta da farda da escola e tremulou com a intensidade do aperto; Mariana sabia que tinha força suficiente para rasga-la ali mesmo se quisesse. Selou os lábios numa linha fina e afrouxou as intenções raivosas. Levantou-se com outro suspiro para se trocar e começar seus afazeres.

O micro-ondas apitou ruidosamente, avisando que o almoço estava pronto. Comeu na companhia da pequena televisão da cozinha, assistindo apaticamente as notícias sobre casos de violência na cidade. Ela não se lembrava da primeira vez que assistiu uma notícia trágica, então não sabia em que momento havia se tornado insensível as notícias como aquelas. Pensou que talvez todas as coisas do mundo fossem assim. Na primeira vez que algo acontece, o impacto é praticamente inevitável. Contudo, quando aquela mesma coisa se repete diversas vezes, nos acostumamos, ainda que seja terrível.

E agora era assim que Mariana encarava o noticiário. Não havia surpresa alguma ali. Lavou os pratos ao terminar de comer. Espiou o horário no celular quando sentou na mesma mesa da cozinha para fazer os deveres de casa. 15:45. Pulou a atividade de matemática. Algumas coisas nem valiam mais a pena tentar.

Com a cabeça apoiada na mão, ela tentou forçar as expressões em inglês a entrarem em sua mente e fazerem algum sentido. Não fizeram. Mas elas entraram e ficaram lá, soltas e flutuando entre o emaranhado de fios de informação. As batidas do lápis na mesa aumentaram de ritmo, ultrapassando o tic-tac do relógio. 18:00. Mais um suspiro.

“Ela disse que chegaria mais cedo do trabalho hoje”, a menina lembrou. Balançando a cabeça, fechou o livro de inglês abarrotado da caligrafia forte e pouco elegante. Abrigou-se na única matéria que realmente apreciava, que lhe remetia a acontecimentos reais do passado, mas não menos fantásticos por isso.

Assim como as palavras do livro de História narram fatos que levaram décadas para acontecer podem ser lidas em algumas horas, o tempo passou da mesma forma para Mariana. E quando menos esperava, levantou a cabeça ao ruído da chave na fechadura. Apressou-se, tirando sua bagunça da mesa da cozinha. 20:00h. Um suspiro. Mesmo assim, o sorriso surgiu no rosto da menina.

“Peguei um engarrafamento terrível, parece que aconteceu algum acidente”, Beatriz justificou o atraso, com um sorriso pequeno dominando as feições cansadas.

Era mentira. Mariana sabia que era uma desculpa esfarrapada como todas as outras. Sua mãe passava o maior tempo possível longe de casa. O lugar trazia lembranças angustiantes demais. E sempre que Beatriz lhe contava tais mentiras, Mariana se esforçava para não apontar as lorotas.

Forçando um sorriso, Mariana deu um aceno de compreensão a sua mãe e arrumou a mesa para o jantar. Beatriz já vestia roupas limpas quando se sentou à mesa. Apenas o ruído dos talheres contra a porcelana podia ser ouvido.

“Tirando o engarrafamento, como foi o dia no trabalho?”

A resposta demorou para vir. Beatriz mastigava lentamente sem revelar satisfação ou desgosto pela comida. Quando por fim engoliu, respondeu:

“Bom”. Mariana refletiu o motivo de ainda se dar ao trabalho de fazer aquela pergunta se sabia que todos os dias recebia aquela mesma resposta padrão e automática. Desta vez, para surpresa da menina, aquela palavra foi seguida de outras. “E o colégio?”

“Exaustivo, insuportável, um inferno na terra…”, respondeu com uma risadinha. Beatriz sabia que a filha estava exagerando. “Mas tudo bem porque o fim de semana está chegando e vamos ao parque, não é?”

“Ah, sobre isso…”

Mariana suspirou. Nem precisava ouvir o restante para saber o que a mãe falaria, mas o fez mesmo assim, suportando com o maxilar trincado o que pensava ser a próxima mentira qualquer. Beatriz não hesitou para falar, fez uma pausa apenas para passar o guardanapo sobre os lábios.

“Vou trabalhar”

Duas palavras. Apenas duas palavras para dizer que o passeio que Mariana aguardou a semana inteira não aconteceria. Um ardor característico subiu aos olhos da menina. Uma respiração trêmula e rápida impediu a umidade de escapar naquele instante.

“Ainda teremos o domingo”, o tom baixo carregava tanto uma sugestão quanto uma esperança.

“Estarei cansada”

Mariana abandonou os talheres e cerrou os punhos sobre o colo. Por um triz não os bateu contra a mesa e gritou que sua mãe só podia ser a pior do mundo. Levantou-se lentamente, avisou que já ia dormir e começou a se afastar em direção ao corredor.

“Já?”

A menina fingiu não escutar. Foi para o seu quarto e fechou a porta atrás de si. Deitou no escuro, esquecendo-se até dos seus pequenos rituais noturnos, como ligar o abajur e ler o livro que guardava no criado mudo. Esta noite, as lágrimas rolaram pelo seu rosto, e o choro carregava muito mais do que apenas frustração por não fazer o passeio que tanto queria.

O apartamento, miúdo e modesto, costumava ser um lugar feliz. O lugar mais feliz do mundo para a menina. O jantar era embalado por conversas e risadas, e Mariana pôde ouvir a voz profunda do seu pai provocando-a, e fazendo Beatriz rir. O choro continuou, agora devido à saudade. Três batidas firmes na porta sobressaltaram Mariana, que se encolheu e ficou paralisada.

Uma fresta da porta se abriu iluminando parcialmente o quarto. A silhueta de Beatriz apareceu no vão.

“Vai dormir sem escovar os dentes?”

Mariana escolheu não responder, pois sabia que as lágrimas poderiam ser ouvidas em sua voz embargada caso falasse. Diante do silêncio, Beatriz entrou no quarto e fechou a porta, mergulhando as duas no breu novamente.

Com sua típica calma, andou até a escrivaninha, onde puxou a cadeira e a colocou próximo da cama antes de sentar e se inclinar para falar.

“Você está bem, Mariana? Está sentindo alguma coisa?”

Ela sentia. Sentia o peso do silêncio entre as duas contaminar o apartamento, o quarto, e seu coração. Já não podia mais suportar. Não se sufocaria mais e sobreviveria de suspiros de horas em horas.

“Por que você não gosta de mim, mãe?”, a voz chorosa perguntou, ao passo que Beatriz se recostou na cadeira. “Por que mente tanto e não conversa comigo?”

“Mariana…”

Levantando o tronco da cama rapidamente, a menina sentou-se e encarou a escuridão do quarto, mas sabendo que sua mãe estava ali. Mariana era como um rio calmo, que mostrava sua fúria quando a tempestade o fazia transbordar. Suas palavras vieram acompanhadas de lágrimas e soluços irrefreáveis.

“Desde que o meu pai morreu você finge que eu não existo, e não aguento mais. Você não gosta de mim, só vive para essa droga de trabalho! Sinto como se eu te incomodasse o tempo todo, mesmo me esforçando ao máximo para não te aborrecer porque assim, quem sabe, você goste de mim novamente, mas… mas nunca é o suficiente, você nunca me enxerga!”

As últimas palavras saíram como gritos raivosos, e sua respiração acelerada parecia o único ruído que preenchia a casa depois do silêncio se abater sobre o aposento. A mãe permanecia tão muda quanto sempre, mesmo com a explosão da menina.

“Você nunca fala nada, somos duas estranhas dividindo um apartamento”, magoada e irritada, Mariana tentou alcançou o abajur para ligar a luz, incomodada pelo escuro. As mãos de Beatriz, magras e frias, tentaram impedir a menina, que as afastou rudemente.

Click

O abajur iluminava parcamente o quarto; os olhos semicerrados das duas voltaram a se abrir depois de poucos segundos. Mariana perdeu a fala diante do rosto da mãe, voltado para baixo e marcado por lágrimas. Nunca a tinha visto chorar. Nem mesmo no funeral. O silêncio se prolongou entre elas.

“Mãe?”, sussurrou.

Beatriz começou com a voz frouxa, “Tenho chegado tarde todos os dias porque estou fazendo hora extra, e sábado também farei. Se ficou com a impressão de que não gosto de você, filha, sinto muito. Sinto tanto que não faz ideia. Deixo sua farda limpa e passada para você ir à escola, preparo o almoço antes de sair para o trabalho, mas essas coisas talvez não sejam suficientes para você perceber meu carinho, meu amor por você”.

Mariana não sabia o que responder, até mesmo sua mente estava silenciosa agora.

“Tenho algumas dívidas, e ainda nem consegui terminar de pagar seus livros da escola. Quando seu pai… faleceu, não estava preparada para arcar com tantas despesas. Me perdoe por não dar conta…”

“Por que não me contou nada disso?”, Mariana perguntou num fiapo de voz.

“Você é só uma menina, a minha menina. Não tem que se preocupar com isso. Nós, adultos, vamos resolver”

As duas não demoraram para perceber o erro que Beatriz cometeu. E, embora fosse difícil fazer tal correção, Mariana falou enquanto passava o dorso das mãos sob os olhos.

“O ‘nós’ mudou, mamãe. Agora somos só você e eu. E tudo bem porque temos uma a outra”, a menina trouxe o rosto de Beatriz para cima afetuosamente. Os olhares marejados se encontraram. “Somos só nós duas agora”.

“Tem razão”, Beatriz sussurrou capturando as mãos da menina e plantando um beijo nelas. “Mesmo que eu não diga com frequência, eu te amo, Mariana. Nunca duvide disso”.

Concordando com a cabeça, a menina deitou-se novamente e desfrutou quando a mãe a cobriu com os lençóis suaves. Espiou o horário no relógio da cabeceira da cama, mas foi Beatriz quem falou.

“Já passou da hora de dormir”.

“Contei as horas para você chegar, mãe”

“Eu também, filha. Conto as horas todos os dias para chegar em casa e ver você”.

Escrito por Paloma Brito

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